Parabólica

Todos os dias o despertador toca às sete horas. Levanto e lavo o rosto. Como qualquer coisa e me visto. Escovo os dentes. Maquiagem. Pego a bolsa e saio: to indo! Bom dia! Bom trabalho! Obrigada!

Pego o ônibus, de preferência no mesmo horário. Quase sempre o mesmo ônibus. Chego no trabalho um pouco depois das oito e meia. Fico ali até às onze e meia. Horário de almoço. Duas horas. Volto à uma e meia e – até que enfim! – saio às seis e meia.

Mais uns dez minutinho de caminhada até o terminal do ônibus. Geralmente o mesmo horário, o mesmo ônibus. Isso tudo de segunda a sexta. Há três anos.

Ontem, voltando pra casa, cansada e entretida entre a paisagem e o rádio do celular, vi viaturas da polícia militar no sentido contrário da rua onde eu estava. Avenida José de Alencar. Na frente de um supermercado, três carros da PM parados, uma ambulância da SAMU. Um lençol no chão. Um ônibus. Igual ao meu.

Outros policiais cruzavam a avenida de cima a baixo em motocicletas. O leçol revelava uma forma escondida por baixo. Um assalto. Uma morte.

Aquilo foi um balde de água fria na minha rotina. Um terremoto. Sete pontos na escala richter.

Não era o meu ônibus, não poderia ser de jeito nenhum. O sentido era contrário ao meu horário. Não, eu jamais poderia ter estado ali. Jamais?

Goo-goo Dolls: “yeah you bleed just to know your alive”.

Naquele momento me senti realmente viva. Percebi a minha fragilidade de chama diante da janela aberta.

Ironia do destino ou não, me dei conta da música que tocava no meu radinho do celular. Engenheiros do Hawaii.

Ela pára
E fica ali parada
Olha-se para nada
(paraná)
Fica parecida
(paraguaia)
Pára-raios em dia de sol
Para mim
Prenda minha parabólica
Princesinha parabólica
O pecado mora ao lado
E o paraíso… paira no ar

… pecados no paraíso …

Se a tv estiver fora do ar
Quando passarem
Os melhores momentos da sua vida
Pela janela alguém estará
De olho em você
Completamente paranóico
Prenda minha parabólica
Princesinha clarabólica
Paralelas que se cruzam
Em belém do pará
Longe, longe, longe (aqui do lado)
(paradoxo: nada nos separa)

Eu paro
E fico aqui parado
Olho-me para longe
A distância não separabólica

p.s. a notícia do assalto não saiu em jornal nenhum. Talvez não fosse assim tão importante. Talvez fosse.

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4 Comentários »

  1. Donaella Said:

    Nossa, fiquei arrepiada, a rotina cansa, mas assim já é demais!
    :/
    Beijos

  2. Aléxia r m rosa Said:

    Tem susto bom e susto ruim(ponto), mas todos e qualquer susto liga(no assustado) algum circuitos desligados. A moral é: …se liga, complete tuas conexões, se amplie! No teu caso específico, acho que este susto vai dar inspiração para ótimos textos. Bjs da que vai ficar “vó”.

  3. Juliana Said:

    isso tudo me fez pensar… mais!!!

  4. Que trágico, ver a morte assim de perto. Sentir-se mais vivo é bom, mas não desse jeito, né…

    Abraço!


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