Archive for junho, 2009

Keep walking

Relendo os (poucos) textos postados aqui me dei conta de umas coisas.

Esse blog surgiu como o oposto do Mil Folhas. O Mais refletiria meu lado adulto, o meu novo lado: o-lado-saí-de-casa-e-agora-sou-gente-grande. Então eu tinha que deixar o profundo de mim vir a tona. Tinha que me virar do avesso e me mostrar que existe carne, sangue, músculos, desejos, fomes, sonhos aqui dentro.

Não sei de onde tirei essa ideia de que adulto tem que ser visceral full time… Dia desses me caiu nas mãos um panfletinho, desses bem mixurucas, fazendo propaganda de um serviço de tele-mensagens. O mais curioso (na verdade a única coisa curiosa) era o rol de mensagens: para pedir perdão, para dizer que traiu, para desejar feliz aniversário, para mandar a puta que o pariu… enfim, um amplo catálogo para os mais diversos sentimentos & acontecimentos da vida moderna.

Deu saudade do Mil… deu vontade de inventar cada uma daquelas mensagens. Deu vontade, daquelas bem grandes, de perceber que ser adulto não é tão chato assim.

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Conto n. 1

O som metálico e estridente do porteiro eletrônico cortou o sono como se fosse um raio. Puta que pariu! pensou. Ele levantou e foi ver quem era. Deu-se conta de estar absolutamente atrasado. Nove e meia. Pegou suas coisas do jeito que conseguiu e partiu, atirando pra ela o último beijo antes de ir.

Ela continuou na cama, fingindo morrer de um sono que já não tinha. Tentando buscar além o meio diazepam consumido doze horas antes. Era sábado.

Flutuou entre um sonho e outro, tentando não ouvir o tictaquear do relógio da cozinha que a lembrava com a persistência de mãe: “acorda!”. Queria fazer de conta que não tinha prometido pra si mesma – só dessa vez – viver. Queria fugir do faz-de-conta e encarar a realidade como ela era: só mais um fim de semana frustrante.

Levantar à uma, o rosto inchado, morta de fome e de desejo de fazer alguma coisa mas já sabendo que as únicas coisas que faria seria encher a cara, comer como uma porca e brigar. Não necessariamente nesta ordem. Depois lamentaria tudo aquilo, prometeria pra si mesma, diante da imagem florida de São Jorge, que no próximo final de semana seria diferente e que encararia toda aquela semana insuportável pra ter direito àqueles dois dias mágicos. Faria por merecer.

Agora estava ali, soterrada por edredons e cobertores, tentando não lembrar, ou melhor, fugindo desesperadamente da sua promessa. Dez  meia.

Abriu a janela do quarto. O sol invadiu timidamente o ambiente, mais como a lembrança de uma obrigação do que uma presença. Ela esticou o braço até a mesinha de cabeceira e pescou um livro. Permaneceu assim, esquecida, absorta, patética.

“Queria ser uma aristocrata ociosoa. Mas não era.”

Precisava levantar, tomar um banho, vestir-se, sair. E não conseguia. Sabia que não conseguiria se fosse apenas ela mesma porque sua vida inteira tinha sido assim: uma eterna sucessão de autoboicote seguida de ternas palavras de consolo e estímulo. Uma versão frustrada de “A raposa e as uvas” numa releitura de auto-ajuda.

O melhor era não pensar. O melhor era tomar fôlego e num golpe irracional por-se de pé. Foi o que fez. Os pés dormentes e nus tocaram o carpete, o frio contraiu-lhe os capilares e arrepiou-lhe o corpo. Vestiu um roupão velho, separou a roupa. Ligou o aquecedor do banheiro. Separou toalhas. Abriu o chuveiro. Mergulhou no agir enquanto a água lhe escorria pelo corpo.

Foi um banho mais demorado do que pensava. Saiu dele quente e surpreendida. Era sim uma aristocrata ociosa ou pelo menos tentaria ser. “Só por hoje”, como nos Alcoolicos Anônimos. Só por hoje fingirira que tudo é normal, que existir não dói, que os outros não a enojam e que não era sozinha.

Porque ela detestava os outros e sofria por se sentir sozinha.

Vestiu-se como mais lhe agradava. Secou os cabelos. Pintou os olhos, a boca. Sentiu que isso já bastava, mas ainda assim obrigou-se a sair de casa.

Destrancou a porta devagar, como quem reza. Chamou o elevador. Ganhou o mundo. O sol ainda brilhava e corria um vento suave – merda! devia ter posto uma calça. E assim, ridícula segurando a barra do vestido, caminhou até o shopping center.

Não era dessas fúteis consumistas moderninhas cor-de-rosa. Gostava de gastar, é verdade, mas investia seu dinheiro em livros, flores, sonhos. Isso! Ia comprar lírios e Fernanda Young – uma aristocrata ociosa. E o romance que esperava “escrever” para si naquele dia começou a se mostrar uma autêntica comédia. E de mau gosto.

A livraria provinciana não tinha um exemplar sequer de Fernanda Young. Conseguiu, a muito custo, garimpar uma obra que lhe interessava. Os lírios, por sua vez, caríssimos, ou já tinha desabrochados ou não o fariam tão cedo. Resolveu levar cravinas coloridas. Melhor do que crisântemos, flor dos mortos.

Não estava morta, ao contrário. Queria desesperadamente provar-se viva. Viva. Tinha há muito abandonado as rédeas da sua vida. Tinha abandonado o agir. Deixava-se levar pelo cotidiano, como um barco a deriva. Era mais fácil do que pegar nos lemes, ditar o rumo. Seguir, seguir, seguir. Sem direção nem voz de comando. Para lugar nenhum. O naufrágio da vontade, do sonho. O desespero com a água no pescoço, os pés e braços batendo até cansar. Até morrer. De frustração.  De melancolia. De amargor.

Cada sonho não realizado, por preguiça, medo ou incapacidade de mudar as coisas, é uma vela que se apaga. É um tiro no escuro que não se sabe aonde acertou, se acertou, que só retumba. Cada sonho não realizado é um eco sem grito. Permanece vibrando por dentro, lembrando a incapacidade de levantar da cama, no sábado de manhã.