Conto n. 1

O som metálico e estridente do porteiro eletrônico cortou o sono como se fosse um raio. Puta que pariu! pensou. Ele levantou e foi ver quem era. Deu-se conta de estar absolutamente atrasado. Nove e meia. Pegou suas coisas do jeito que conseguiu e partiu, atirando pra ela o último beijo antes de ir.

Ela continuou na cama, fingindo morrer de um sono que já não tinha. Tentando buscar além o meio diazepam consumido doze horas antes. Era sábado.

Flutuou entre um sonho e outro, tentando não ouvir o tictaquear do relógio da cozinha que a lembrava com a persistência de mãe: “acorda!”. Queria fazer de conta que não tinha prometido pra si mesma – só dessa vez – viver. Queria fugir do faz-de-conta e encarar a realidade como ela era: só mais um fim de semana frustrante.

Levantar à uma, o rosto inchado, morta de fome e de desejo de fazer alguma coisa mas já sabendo que as únicas coisas que faria seria encher a cara, comer como uma porca e brigar. Não necessariamente nesta ordem. Depois lamentaria tudo aquilo, prometeria pra si mesma, diante da imagem florida de São Jorge, que no próximo final de semana seria diferente e que encararia toda aquela semana insuportável pra ter direito àqueles dois dias mágicos. Faria por merecer.

Agora estava ali, soterrada por edredons e cobertores, tentando não lembrar, ou melhor, fugindo desesperadamente da sua promessa. Dez  meia.

Abriu a janela do quarto. O sol invadiu timidamente o ambiente, mais como a lembrança de uma obrigação do que uma presença. Ela esticou o braço até a mesinha de cabeceira e pescou um livro. Permaneceu assim, esquecida, absorta, patética.

“Queria ser uma aristocrata ociosoa. Mas não era.”

Precisava levantar, tomar um banho, vestir-se, sair. E não conseguia. Sabia que não conseguiria se fosse apenas ela mesma porque sua vida inteira tinha sido assim: uma eterna sucessão de autoboicote seguida de ternas palavras de consolo e estímulo. Uma versão frustrada de “A raposa e as uvas” numa releitura de auto-ajuda.

O melhor era não pensar. O melhor era tomar fôlego e num golpe irracional por-se de pé. Foi o que fez. Os pés dormentes e nus tocaram o carpete, o frio contraiu-lhe os capilares e arrepiou-lhe o corpo. Vestiu um roupão velho, separou a roupa. Ligou o aquecedor do banheiro. Separou toalhas. Abriu o chuveiro. Mergulhou no agir enquanto a água lhe escorria pelo corpo.

Foi um banho mais demorado do que pensava. Saiu dele quente e surpreendida. Era sim uma aristocrata ociosa ou pelo menos tentaria ser. “Só por hoje”, como nos Alcoolicos Anônimos. Só por hoje fingirira que tudo é normal, que existir não dói, que os outros não a enojam e que não era sozinha.

Porque ela detestava os outros e sofria por se sentir sozinha.

Vestiu-se como mais lhe agradava. Secou os cabelos. Pintou os olhos, a boca. Sentiu que isso já bastava, mas ainda assim obrigou-se a sair de casa.

Destrancou a porta devagar, como quem reza. Chamou o elevador. Ganhou o mundo. O sol ainda brilhava e corria um vento suave – merda! devia ter posto uma calça. E assim, ridícula segurando a barra do vestido, caminhou até o shopping center.

Não era dessas fúteis consumistas moderninhas cor-de-rosa. Gostava de gastar, é verdade, mas investia seu dinheiro em livros, flores, sonhos. Isso! Ia comprar lírios e Fernanda Young – uma aristocrata ociosa. E o romance que esperava “escrever” para si naquele dia começou a se mostrar uma autêntica comédia. E de mau gosto.

A livraria provinciana não tinha um exemplar sequer de Fernanda Young. Conseguiu, a muito custo, garimpar uma obra que lhe interessava. Os lírios, por sua vez, caríssimos, ou já tinha desabrochados ou não o fariam tão cedo. Resolveu levar cravinas coloridas. Melhor do que crisântemos, flor dos mortos.

Não estava morta, ao contrário. Queria desesperadamente provar-se viva. Viva. Tinha há muito abandonado as rédeas da sua vida. Tinha abandonado o agir. Deixava-se levar pelo cotidiano, como um barco a deriva. Era mais fácil do que pegar nos lemes, ditar o rumo. Seguir, seguir, seguir. Sem direção nem voz de comando. Para lugar nenhum. O naufrágio da vontade, do sonho. O desespero com a água no pescoço, os pés e braços batendo até cansar. Até morrer. De frustração.  De melancolia. De amargor.

Cada sonho não realizado, por preguiça, medo ou incapacidade de mudar as coisas, é uma vela que se apaga. É um tiro no escuro que não se sabe aonde acertou, se acertou, que só retumba. Cada sonho não realizado é um eco sem grito. Permanece vibrando por dentro, lembrando a incapacidade de levantar da cama, no sábado de manhã.

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3 Comentários »

  1. a aristocracia em mim passou de raspão!

  2. Eu gostaria de ser um aristocrata ocioso! Sem preocupação, sem medo. Com dinheiro, principalmente.
    mas eu sou feliz assim como eu sou também. É bastante provável que eu não aguentaria uma vida parada e sem aventuras ou desilusões, sendo como sou.

    Mas enfim, gostei do conto (só acho que é uma crônica, ;)) e do seu comentário lá no meu blog.

    Beijão!

  3. Só a primeira linha do que foi escrito já deixou o texto punk!


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