Archive for julho, 2009

Conto nº 3

“Continuo a pensar que quando tudo parece sem saída, sempre se pode cantar. Por essa razão escrevo.” 

Caio Fernando Abreu

 

Atravessou a grande avenida correndo porque sabia que o ônibus não ia esperar – eles jamais esperam. Embarcou. A barra das calças já ensopada pela água da chuva, não obstante tenha andado menos de cem metros entre o portão de casa e o ponto do coletivo. Deu graças a deus por encontrar um assento vazio junto a janela e ali sentou. Não gostava de andar de ônibus mas gostava de olhar através de suas janelas. Era a melhor forma de fazer aquela viagem diária de quarenta e cinco minutos, duas vezes ao dia, cinco dias por semana. Há três anos.

O ônibus geralmente era o mesmo, assim como o motorista, o cobrador e meia dúzia de outros passageiros. A janela é que variava. A janela e o mundo em perspectiva que ela projetava. Como um filme novo a cada viagem. Como uma viagem nova naquele mesmo filme que era a sua vida. E naquela manhã chuvosa decidiu escrever.

Gostava de escrever assim, em pensamento e em movimento, embora sabendo que aquele texto rico, precioso, se desfacelaria a partir do momento em que a caneta tocasse as linhas do caderno. Porque era daquelas que escreviam no ar. Porque sabia que as palavras são pássaros e era tão “difícil aprisionar os que tem asas”, como leu certa vez. Então deixava fluir. Era bom fluir com aquelas frases que iam se formando e que aos poucos teciam uma obra que não se acabaria nunca e da qual já nem mais lembrava o começo. Era bom fluir como a chuva que corria líquida pela janela e encontrava o asfalto.

Por um momento lembrou que tudo aquilo logo acabaria, que a viagem terminaria e que só a chuva continuaria a cair. Não importava quantas vezes o sol brilhasse lá fora, aquela viagem era sempre chuvosa porque era uma viagem a um mundo sem janelas, de paredes de cor indefinida, que para ela tinham cor de tristeza. Era uma viagem de ida e volta, sabia, com oito horas de diferença entre uma e outra. Porém, era uma jornada sem fim. Não via perspectiva nenhuma além daquela projetada na janela. Sua vida tinha estagnado tanto quanto a poça d’água que vislumbrava na calçada.

O sinal fechou e decidiu que era melhor voltar a escrever enquanto ainda era tempo. Precisava escrever, precisava estar a salvo. Ainda que por pouco tempo. (Às vezes uma ilusão basta, mesmo que passageira).

Por um momento teve inveja da chuva. A chuva caía e juntava-se com o riacho que corta a avenida como uma grande artéria. O riacho juntava-se ao rio, que unia-se a laguna, que desaguava no mar. E depois, meio sem querer, evaporava e voltava a ser chuva, que voltava a ser riacho… queria ser líquida. Era tão insustentável, de tempos em tempos, ser sólida, definida, limitada. Queria simplismente ir. Como a chuva que lavava o mundo gris que a janela mostrava.

Sentiu a visão úmida pelas lágrimas que enchiam os olhos e um segundo antes do temporal que se formava dentro dela, avistou no meio do trânsito caótico da manhã um fusca amarelo, que, contrariando todas as regras de trânsito e estética, tumultuava ainda mais o tráfego. Aquele fusca lhe atingiu como um deboche divino do acaso. De início, achou aquilo um desparate, uma falta de respeito ao fardo que alimentava e carregava com lágrimas e sofrimento. Aquele veículo amarelo ali era como uma tela de Miró numa exposição de Caravaggio.

E então sorriu. Porque ainda era dia, um novo dia, um bom dia. Porque de alguma forma sabia que tinha força dentro de si. E que, apesar de tudo, mesmo uma poça de chuva estagnada na calçada uma hora evapora. E vira chuva, que junta-se ao riacho, que desemboca no rio, que une-se à laguna, que desagua no mar.

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