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Lançamento

Sempre que penso sobre o ato de escrever, me lembro de um texto do Caio Fernando Abreu. O texto se chama “Carta ao Zézim” e é de uma intensidade pulsante. Na verdade, me lembro desse trecho:

“(…) Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta (…)”

E o meu momento chegou: dia 11/11, às 20h, na Feira do Livro de Porto Alegre, vamos lançar os “Contos de Ababndono”. Um projeto organizado pela Ajuris, onde participo com um conto. Meu primeiro conto publicado fisicamente.

Frio na barriga.

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Adultecendo….

“Tudo isso dói. Mas eu sei que passa, que se está sendo assim é porque deve ser assim, e virá outro ciclo, depois. Para me dar força, escrevi no espelho do meu quarto: ‘Tá certo que o sonho acabou, mas também não precisa virar pesadelo, não é?’ É o que estou tentando vivenciar. Certo, muitas ilusões dançaram – mas eu me recuso a descrer absolutamente de tudo, eu faço força para manter algumas esperanças acesas, como velas. Também não quero dramatizar e fazer dos problemas reais monstros insolúveis, becos-sem-saída. Nada é muito terrível. Só viver, não é? A barra mesmo é ter que estar vivo e ter que desdobrar, batalhar um jeito qualquer de ficar numa boa. O meu tem sido olhar pra dentro, devagar, ter muito cuidado com cada palavra, com cada movimento, com cada coisa que me ligue ao de fora. Até que os dois ritmos naturalmente se encaixem outra vez e passem a fluir. Porque não estou fluindo.” Caio Fernando Abreu

Meu mundo tem sido assim, hoje, ontem, esses dias. Parece que tudo resolveu mudar e eu já não sei mais o meu lugar, não sei mais quem é quem. Muitas máscaras que antes eu não via; muita força que achava que não tinha.

As transformações, as mudanças sempre me deixaram assustada, chorona, medrosa. Só que dessa vez cansei. Sei lá, acho chato ficar por ai lamentando o que foi, o que eu ainda queria que fosse. Logo eu que grito por ai que adoro o novo, que a mesmice é o fim. Não quero mais me esconder embaixo do edredom. Tenho um nó na garganta, no peito, não sei bem mas é aqui dentro. Uma sensação de perdido, de desencontro. Foi o mundo que mudou assim de repente? Ou fui eu?

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Conto nº 3

“Continuo a pensar que quando tudo parece sem saída, sempre se pode cantar. Por essa razão escrevo.” 

Caio Fernando Abreu

 

Atravessou a grande avenida correndo porque sabia que o ônibus não ia esperar – eles jamais esperam. Embarcou. A barra das calças já ensopada pela água da chuva, não obstante tenha andado menos de cem metros entre o portão de casa e o ponto do coletivo. Deu graças a deus por encontrar um assento vazio junto a janela e ali sentou. Não gostava de andar de ônibus mas gostava de olhar através de suas janelas. Era a melhor forma de fazer aquela viagem diária de quarenta e cinco minutos, duas vezes ao dia, cinco dias por semana. Há três anos.

O ônibus geralmente era o mesmo, assim como o motorista, o cobrador e meia dúzia de outros passageiros. A janela é que variava. A janela e o mundo em perspectiva que ela projetava. Como um filme novo a cada viagem. Como uma viagem nova naquele mesmo filme que era a sua vida. E naquela manhã chuvosa decidiu escrever.

Gostava de escrever assim, em pensamento e em movimento, embora sabendo que aquele texto rico, precioso, se desfacelaria a partir do momento em que a caneta tocasse as linhas do caderno. Porque era daquelas que escreviam no ar. Porque sabia que as palavras são pássaros e era tão “difícil aprisionar os que tem asas”, como leu certa vez. Então deixava fluir. Era bom fluir com aquelas frases que iam se formando e que aos poucos teciam uma obra que não se acabaria nunca e da qual já nem mais lembrava o começo. Era bom fluir como a chuva que corria líquida pela janela e encontrava o asfalto.

Por um momento lembrou que tudo aquilo logo acabaria, que a viagem terminaria e que só a chuva continuaria a cair. Não importava quantas vezes o sol brilhasse lá fora, aquela viagem era sempre chuvosa porque era uma viagem a um mundo sem janelas, de paredes de cor indefinida, que para ela tinham cor de tristeza. Era uma viagem de ida e volta, sabia, com oito horas de diferença entre uma e outra. Porém, era uma jornada sem fim. Não via perspectiva nenhuma além daquela projetada na janela. Sua vida tinha estagnado tanto quanto a poça d’água que vislumbrava na calçada.

O sinal fechou e decidiu que era melhor voltar a escrever enquanto ainda era tempo. Precisava escrever, precisava estar a salvo. Ainda que por pouco tempo. (Às vezes uma ilusão basta, mesmo que passageira).

Por um momento teve inveja da chuva. A chuva caía e juntava-se com o riacho que corta a avenida como uma grande artéria. O riacho juntava-se ao rio, que unia-se a laguna, que desaguava no mar. E depois, meio sem querer, evaporava e voltava a ser chuva, que voltava a ser riacho… queria ser líquida. Era tão insustentável, de tempos em tempos, ser sólida, definida, limitada. Queria simplismente ir. Como a chuva que lavava o mundo gris que a janela mostrava.

Sentiu a visão úmida pelas lágrimas que enchiam os olhos e um segundo antes do temporal que se formava dentro dela, avistou no meio do trânsito caótico da manhã um fusca amarelo, que, contrariando todas as regras de trânsito e estética, tumultuava ainda mais o tráfego. Aquele fusca lhe atingiu como um deboche divino do acaso. De início, achou aquilo um desparate, uma falta de respeito ao fardo que alimentava e carregava com lágrimas e sofrimento. Aquele veículo amarelo ali era como uma tela de Miró numa exposição de Caravaggio.

E então sorriu. Porque ainda era dia, um novo dia, um bom dia. Porque de alguma forma sabia que tinha força dentro de si. E que, apesar de tudo, mesmo uma poça de chuva estagnada na calçada uma hora evapora. E vira chuva, que junta-se ao riacho, que desemboca no rio, que une-se à laguna, que desagua no mar.

Keep walking

Relendo os (poucos) textos postados aqui me dei conta de umas coisas.

Esse blog surgiu como o oposto do Mil Folhas. O Mais refletiria meu lado adulto, o meu novo lado: o-lado-saí-de-casa-e-agora-sou-gente-grande. Então eu tinha que deixar o profundo de mim vir a tona. Tinha que me virar do avesso e me mostrar que existe carne, sangue, músculos, desejos, fomes, sonhos aqui dentro.

Não sei de onde tirei essa ideia de que adulto tem que ser visceral full time… Dia desses me caiu nas mãos um panfletinho, desses bem mixurucas, fazendo propaganda de um serviço de tele-mensagens. O mais curioso (na verdade a única coisa curiosa) era o rol de mensagens: para pedir perdão, para dizer que traiu, para desejar feliz aniversário, para mandar a puta que o pariu… enfim, um amplo catálogo para os mais diversos sentimentos & acontecimentos da vida moderna.

Deu saudade do Mil… deu vontade de inventar cada uma daquelas mensagens. Deu vontade, daquelas bem grandes, de perceber que ser adulto não é tão chato assim.

Conto n. 1

O som metálico e estridente do porteiro eletrônico cortou o sono como se fosse um raio. Puta que pariu! pensou. Ele levantou e foi ver quem era. Deu-se conta de estar absolutamente atrasado. Nove e meia. Pegou suas coisas do jeito que conseguiu e partiu, atirando pra ela o último beijo antes de ir.

Ela continuou na cama, fingindo morrer de um sono que já não tinha. Tentando buscar além o meio diazepam consumido doze horas antes. Era sábado.

Flutuou entre um sonho e outro, tentando não ouvir o tictaquear do relógio da cozinha que a lembrava com a persistência de mãe: “acorda!”. Queria fazer de conta que não tinha prometido pra si mesma – só dessa vez – viver. Queria fugir do faz-de-conta e encarar a realidade como ela era: só mais um fim de semana frustrante.

Levantar à uma, o rosto inchado, morta de fome e de desejo de fazer alguma coisa mas já sabendo que as únicas coisas que faria seria encher a cara, comer como uma porca e brigar. Não necessariamente nesta ordem. Depois lamentaria tudo aquilo, prometeria pra si mesma, diante da imagem florida de São Jorge, que no próximo final de semana seria diferente e que encararia toda aquela semana insuportável pra ter direito àqueles dois dias mágicos. Faria por merecer.

Agora estava ali, soterrada por edredons e cobertores, tentando não lembrar, ou melhor, fugindo desesperadamente da sua promessa. Dez  meia.

Abriu a janela do quarto. O sol invadiu timidamente o ambiente, mais como a lembrança de uma obrigação do que uma presença. Ela esticou o braço até a mesinha de cabeceira e pescou um livro. Permaneceu assim, esquecida, absorta, patética.

“Queria ser uma aristocrata ociosoa. Mas não era.”

Precisava levantar, tomar um banho, vestir-se, sair. E não conseguia. Sabia que não conseguiria se fosse apenas ela mesma porque sua vida inteira tinha sido assim: uma eterna sucessão de autoboicote seguida de ternas palavras de consolo e estímulo. Uma versão frustrada de “A raposa e as uvas” numa releitura de auto-ajuda.

O melhor era não pensar. O melhor era tomar fôlego e num golpe irracional por-se de pé. Foi o que fez. Os pés dormentes e nus tocaram o carpete, o frio contraiu-lhe os capilares e arrepiou-lhe o corpo. Vestiu um roupão velho, separou a roupa. Ligou o aquecedor do banheiro. Separou toalhas. Abriu o chuveiro. Mergulhou no agir enquanto a água lhe escorria pelo corpo.

Foi um banho mais demorado do que pensava. Saiu dele quente e surpreendida. Era sim uma aristocrata ociosa ou pelo menos tentaria ser. “Só por hoje”, como nos Alcoolicos Anônimos. Só por hoje fingirira que tudo é normal, que existir não dói, que os outros não a enojam e que não era sozinha.

Porque ela detestava os outros e sofria por se sentir sozinha.

Vestiu-se como mais lhe agradava. Secou os cabelos. Pintou os olhos, a boca. Sentiu que isso já bastava, mas ainda assim obrigou-se a sair de casa.

Destrancou a porta devagar, como quem reza. Chamou o elevador. Ganhou o mundo. O sol ainda brilhava e corria um vento suave – merda! devia ter posto uma calça. E assim, ridícula segurando a barra do vestido, caminhou até o shopping center.

Não era dessas fúteis consumistas moderninhas cor-de-rosa. Gostava de gastar, é verdade, mas investia seu dinheiro em livros, flores, sonhos. Isso! Ia comprar lírios e Fernanda Young – uma aristocrata ociosa. E o romance que esperava “escrever” para si naquele dia começou a se mostrar uma autêntica comédia. E de mau gosto.

A livraria provinciana não tinha um exemplar sequer de Fernanda Young. Conseguiu, a muito custo, garimpar uma obra que lhe interessava. Os lírios, por sua vez, caríssimos, ou já tinha desabrochados ou não o fariam tão cedo. Resolveu levar cravinas coloridas. Melhor do que crisântemos, flor dos mortos.

Não estava morta, ao contrário. Queria desesperadamente provar-se viva. Viva. Tinha há muito abandonado as rédeas da sua vida. Tinha abandonado o agir. Deixava-se levar pelo cotidiano, como um barco a deriva. Era mais fácil do que pegar nos lemes, ditar o rumo. Seguir, seguir, seguir. Sem direção nem voz de comando. Para lugar nenhum. O naufrágio da vontade, do sonho. O desespero com a água no pescoço, os pés e braços batendo até cansar. Até morrer. De frustração.  De melancolia. De amargor.

Cada sonho não realizado, por preguiça, medo ou incapacidade de mudar as coisas, é uma vela que se apaga. É um tiro no escuro que não se sabe aonde acertou, se acertou, que só retumba. Cada sonho não realizado é um eco sem grito. Permanece vibrando por dentro, lembrando a incapacidade de levantar da cama, no sábado de manhã.

Quem tem medo dela?

“Encarar a vida pela frente… Sempre… Encarar a vida pela frente, e vê-la como ela é… Por fim, entendê-la e amá-la pelo que ela é… E depois deixá-la seguir… Sempre os anos entre nós, sempre os anos… Sempre o amor… Sempre a razão… Sempre o tempo… Sempre… As horas.” Virginia Woolf

Parabólica

Todos os dias o despertador toca às sete horas. Levanto e lavo o rosto. Como qualquer coisa e me visto. Escovo os dentes. Maquiagem. Pego a bolsa e saio: to indo! Bom dia! Bom trabalho! Obrigada!

Pego o ônibus, de preferência no mesmo horário. Quase sempre o mesmo ônibus. Chego no trabalho um pouco depois das oito e meia. Fico ali até às onze e meia. Horário de almoço. Duas horas. Volto à uma e meia e – até que enfim! – saio às seis e meia.

Mais uns dez minutinho de caminhada até o terminal do ônibus. Geralmente o mesmo horário, o mesmo ônibus. Isso tudo de segunda a sexta. Há três anos.

Ontem, voltando pra casa, cansada e entretida entre a paisagem e o rádio do celular, vi viaturas da polícia militar no sentido contrário da rua onde eu estava. Avenida José de Alencar. Na frente de um supermercado, três carros da PM parados, uma ambulância da SAMU. Um lençol no chão. Um ônibus. Igual ao meu.

Outros policiais cruzavam a avenida de cima a baixo em motocicletas. O leçol revelava uma forma escondida por baixo. Um assalto. Uma morte.

Aquilo foi um balde de água fria na minha rotina. Um terremoto. Sete pontos na escala richter.

Não era o meu ônibus, não poderia ser de jeito nenhum. O sentido era contrário ao meu horário. Não, eu jamais poderia ter estado ali. Jamais?

Goo-goo Dolls: “yeah you bleed just to know your alive”.

Naquele momento me senti realmente viva. Percebi a minha fragilidade de chama diante da janela aberta.

Ironia do destino ou não, me dei conta da música que tocava no meu radinho do celular. Engenheiros do Hawaii.

Ela pára
E fica ali parada
Olha-se para nada
(paraná)
Fica parecida
(paraguaia)
Pára-raios em dia de sol
Para mim
Prenda minha parabólica
Princesinha parabólica
O pecado mora ao lado
E o paraíso… paira no ar

… pecados no paraíso …

Se a tv estiver fora do ar
Quando passarem
Os melhores momentos da sua vida
Pela janela alguém estará
De olho em você
Completamente paranóico
Prenda minha parabólica
Princesinha clarabólica
Paralelas que se cruzam
Em belém do pará
Longe, longe, longe (aqui do lado)
(paradoxo: nada nos separa)

Eu paro
E fico aqui parado
Olho-me para longe
A distância não separabólica

p.s. a notícia do assalto não saiu em jornal nenhum. Talvez não fosse assim tão importante. Talvez fosse.

Pausa

ando por ai, perdida, em turbilhão de águas

náufraga

exausta

confusa

medrosa

na beira do abismo

mas mesmo assim,

eu ainda acredito em suspiros.

Por que?

Ouvindo Joan Osborne cantar no rádio “One of us”…

 

“Se Deus tivesse um nome, qual seria?
E como seria seu rosto?
Se você encontrasse com ele e toda a sua glória
O que você perguntaria, se você pudesse apenas fazer uma pergunta?”

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